O trauma acompanha a psicanálise desde seus primórdios. Ao investigar a origem do sofrimento psíquico, Freud percebeu que determinadas experiências deixavam marcas que não podiam ser assimiladas pelo aparelho psíquico da mesma forma que os acontecimentos cotidianos.

Mas afinal, seria possível evitar um trauma?

A resposta não é tão simples quanto parece.

Costumamos imaginar que o trauma está no acontecimento em si: um acidente, uma perda, uma violência ou qualquer experiência extremamente dolorosa. Entretanto, a psicanálise nos mostra que o trauma não se define apenas pelo evento vivido, mas pela maneira singular como cada sujeito é afetado por ele.

Duas pessoas podem atravessar uma mesma situação e reagir de formas completamente diferentes. Enquanto uma consegue elaborar a experiência e seguir adiante, outra permanece profundamente marcada por aquilo que viveu. Isso acontece porque cada indivíduo possui uma história, recursos emocionais e formas próprias de significar os acontecimentos.

Em outras palavras, não existe um evento universalmente traumático. Existe uma experiência que, em determinado momento da vida, ultrapassa a capacidade psíquica de elaboração daquele sujeito.

É justamente nesse ponto que surge a pergunta: se não podemos controlar tudo o que acontece conosco, haveria alguma forma de impedir que uma experiência se transforme em trauma?

Em grande parte das situações, não.

A vida inevitavelmente nos confronta com perdas, frustrações, mudanças inesperadas e acontecimentos que escapam completamente ao nosso controle. Não existe uma maneira de eliminar essa dimensão imprevisível da existência.

O que pode fazer diferença é a forma como essas experiências encontram espaço para serem elaboradas.

Quando aquilo que vivemos pode ser simbolizado, compartilhado e integrado à nossa história, reduzimos a probabilidade de que permaneça como uma marca silenciosa, repetindo-se por meio de sintomas, angústias ou padrões de comportamento.

É por isso que o trauma não deve ser compreendido como um destino definitivo.

Embora não seja possível impedir que determinadas experiências nos atravessem profundamente, é possível construir novos sentidos para elas. Esse é um dos principais objetivos do trabalho psicoterapêutico: oferecer um espaço de escuta onde aquilo que antes permanecia sem palavras possa, pouco a pouco, encontrar uma forma de elaboração.

Na clínica psicanalítica, o tratamento não busca apagar o passado nem fazer com que o paciente "esqueça" o que aconteceu. O que se transforma é a relação que cada pessoa estabelece com sua própria história.

Quando uma experiência deixa de ocupar o lugar de algo impossível de ser pensado e passa a ser integrada à narrativa de vida do sujeito, ela perde parte de sua força traumática.

Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja se é possível evitar o trauma, mas sim como podemos nos relacionar com aquilo que inevitavelmente nos marca ao longo da vida.

A resposta da psicanálise aponta justamente para esse caminho: não eliminar o sofrimento, mas criar condições para que ele possa ser elaborado, transformado e deixe de determinar, de forma inconsciente, os rumos da nossa existência.

Flávia Freitas